Previsões tecnológicas? Desconfie!
Existem diversas razões pelas quais as previsões feitas acerca de tecnologia falham. ninguém pode ser culpado por não acertar uma previsão acerca de “inovações”, principalmente porque “errar é humano”. Longe de colocar a inerente falha a composição do ser humano, normalmente as previsões são equivocadas. Isso porque, a principal força por trás das inovações, são grandes empresas, que procuram tirar proveito financeiro dessas novidades e inovações. Afinal, o vendedor tem que ser o primeiro a acreditar no seu produto.
Normalmente, são essas empresas que correm apressadamente a fazer investimentos em produtos e tecnologias incrivelmente promissoras. E às vezes, por mais promissor que esse algo seja, ainda é preciso entender, e avaliar como o mundo irá receber essa “novidade”. Questões culturais podem ser responsáveis diretos pela aceitação ou não de uma tecnologia.
Um pouco de passado: Vídeo disco
Antes mesmo do vídeo-cassete, e da guerra de definição de padrões por um modelo (VHS ou BetaMax) ser definido em 1975, foi inventada uma tecnologia muito, mas muito similar: o vídeo-disco[1]. O vídeo-disco (1970) tinha uma imagem muito superior ao vídeo-cassete. Então porque não deu certo?
Um dos principais motivos pelo qual o vídeo-disco não deu certo, pode ter sido a maneira como fora apresentado: um grande “armazenador” de programas. Com eles, as pessoas poderiam gravar todos os seus programas favoritos, e vê-los novamente quantas vezes desejassem. Até ai, não existe nenhum segredo: para nós, que crescemos com o efeito “blockbuster”. Possivelmente, o grande motivador do sucesso do vídeo-cassete, tenha sido as video-locadoras. As pessoas não queriam naquela época, gravar todos os seus programas favoritos (mesmo porque, acredito que a variedade não era muita), mas queriam alugar um filme, assisti-lo apenas uma vez, ou na possibilidade de alguém gostar muito desse filme, alugá-lo novamente, ou até mesmo comprar o mesmo. Essa mesma história pode ser aplicada ao CD-ROM “interativo”.
Há uns oito anos atrás, chegou uma grande novidade no mercado de educação a distância (CBT – computer based trainning) e tudo o mais que desejasse estar “na nova onda” do mercado de tecnologia. Naquela época, apostei todas as minhas fichas profissionais para fazer um curso de desenvolvedor de aplicações multimídia, no SENAC da Lapa. La aprendi a usar o Director. Mas para minha surpresa, pouco tempo depois, chegou a internet de verdade (junto com o fantástico Flash player).
O principal fator de sucesso (a aposta) do CDROM interativo era justamente, ter conteúdo (rich media) em vídeo, e seja lá quais formatos “rich tech” a mais, era justamente o fator “unplugged”. Afinal de contas, era impossível transmitir vídeo com a banda de internet disponível na época. (56 kbps era o sonho da velocidade). Se o problema era, justamente não ter como acessar a informação, o Director (e para os mais saudosos) Authorware, a Internet resolvia esse problema. E la se foi mais uma “inovação” promissora para o lixo.
E para ajudar a disseminação do CD-ROM, pouco tempo depois, surgiu o DVD. E logo em seguida, os “pen-drives” de 1 giga.
Hoje, graças ao meu pen-drive recém-adquirido de 32 gigas, nem lembro quando foi a ultima vez que usei um DVD-rom.
E poderia listar casos de “inovações” que não vingaram, não somente pelo fator cultural, mas também, por questões relacionadas ao ambiente em que essas inovações surgiram. Fico imaginando se um dos fatores de sucesso do vídeo-cassete à opção do vídeo-disco, que tinha oferta de uma qualidade muito melhor, não se deu justamente ao fato de que a fita VHS era muito semelhante a fita k-7. Mas isso é pura especulação pessoal.
Em seu texto sobre “porque as previsões tecnológicas não dão certas”, Herby Brody alerta não somente para ser muito cuidadoso ao se fazer previsões acerca de tecnologia, mas como ser cauteloso em aceitar uma desta como verdade. Alias, sempre é preciso ter cautela para lidar com a incerteza.
Tecnologia e Internet
A internet (e o que acontece nela) é tão incerto quanto o próprio caminho da tecnologia. Entendendo a internet como “meio”, ela permite a criação de ambientes, soluções e novidades tão incertas quanto o transistor em substituição das válvulas do rádio nos anos 40. Vejo muita gente, seguindo pessoas que fazem previsões “fabulosas” sobre tudo o que acontece na internet. Porque não citar a bola da vez? O twitter é uma aplicação simples, com um objetivo ridiculamente simples: Voce escreve em alguns caracteres o que esta fazendo, e o mundo sabe o que vc esta fazendo. Brody adverte acerca das “modas” tecnológicas: Isso nos tira o foco racional de pesquisa e desenvolvimento. É até incoerente, porque não precisa ser especialista em marketing, para saber que nenhum modelo de negócios se sustenta sozinho.” Não existe cafézinho de graça no universo” – já dizia uma professora minha. Então, antes de sairmos por ai, aceitando tudo como “verdade” absoluta e incondicional dos grandes “gurus”, vamos nos lembrar que eles são tão humanos quando nós, e que errar, é algo inerente ao ser humano.
Cautela com o incerto.
Brody conclui seu texto dando algumas dicas para saber onde pisar nesse complicado e dinâmico ambiente da tecnologia.
- Observe de perto o desenvolvimento (como se faz algo). Há uns 15 anos, uma impressora custava algo em torno de 10 mil dólares. Não foram direcionados esforços para reduzir o custo da impressora, mas fora aperfeiçoado pela Cannon, procurando aperfeiçoar componentes para fotocopiadoras.
- De o devido desconto as previsões baseadas em informações de partes interessadas. Esse conselho tem sido sistematicamente ignorado pelos próprios investidores, pela mídia e pelos empresários. As partes interessadas, não se limitam às empresas que esperam obter lucro financeiro com isso, mas tambem os cientistas e pesquisadores, cujos financiamentos aumentam ou diminuem de acordo com o interesse da opinião pública. (lembra do cafézinho de graça??)
- Leve em consideração que as tecnologias existem, continuam sendo aperfeiçoadas e não espere que as pessoas substituam o que elas já possuem, por uma novidade que é só 10% melhor ou mais eficiente.
- Cuidado com as previsões baseadas na extrapolação de tendências. Predizer o futuro olhando o passado pressupõe que as condições permanecem constantes. Isso é como dirigir um carro olhando para o retrovisor.
- Saiba a diferença entre previsão tecnológica e projeções de mercado. Uma coisa é afirmar que os novos chips de arseneto de gálio vão funcionar mais rapidamente do que os chips de silício – isso é uma questão de física e de engenharia. Prever porem, que o mercado de chips de arseneto de gálio vai alcançar tal nível em tal ano é uma afirmação baseada em inúmeros fatores de difícil previsão – como a dificuldade de produzir o material em escala industrial, a demanda por computadores e o avanço de tecnologias competidoras.
- De tempo às “novidades” para que se tornem conhecidas. Tecnologias realmente inovadoras em geral levam de dez a vinte e cinco anos para serem difundida. Apesar da velocidade da internet, ser totalmente discrepante e absurdamente mais rápida (negócios e novidades surgem e desaparecem, tão rápido quanto uma viagem de 40 minutos a uma cidade do interior), mas a regra continua válida. Para se ter noção, as fibras ópticas, estão ai desde os anos 60.
- Preste atenção à infra-estrutura da qual depende o sucesso de uma tecnologia. Lee de Forest inventou a válvula em 1906, mas as transmissões de rádio só começaram em 1921: o desenvolvimento das válvulas em escala industrial, levou 15 anos.
Seguir os princípios aqui esboçados, pode ajudar a trazer alguma ordem a confusa avalanche das previsões tecnológicas e novidades da internet. Mas no fundo, essas profecias são meras apostas. Robert Lucky, dos Laboratórios Bell, compara o desenvolvimento tecnológico como uma mesa espirita. “ Todo mundo tem as mãos imóveis sobre a mesa, mas sempre parece que alguem de fora está movendo a mesa”
[1] Vídeo Disco – Em 1970, a MCA DiscoVision, lançou seu primeiro disco regravável. Naquela época, não era chamado de DVD, mas, o conceito não parece familiar? Referencia: http://www.discovision.com/DVA/History
Referencia: Porque as previsões tecnológicas nem sempre dão certo, Herb Brody –Technology Review Vol. 94 / n 5, 1991 – MIT
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