Filosofia da ciência e tecnologia x criatividade: Tudo a ver!

Sempre gostei muito de filosofia. Uma das razões principais disso se deve ao fato de que a filosofia sempre me despertou um certa empolgação. Ficava lendo horas e horas, quando decidia me refugiar na biblioteca entre uma e outra aula vaga no ginásio. Primeiro foram os livros com ilustrações riquíssimas sobre animais e dinossauros, até que um dia, dei de cara com um livro de filosofia, e desde então, mantenho meu desejo por navegar no vasto oceano da filosofia, como uma tarefa na linha lista de “to-do”. Não pela carreira, não pela necessidade, mas pelo prazer.

Enquanto isso, me atenho aos meus objetivos primários. Mas qual não foi minha surpresa ao me deparar com os textos de Rubem Alves e Régis de Moraes com o tema “Filosofia da ciência e tecnologia”.

Ambos autores, despertaram em  mim alguns insigths que gostaria de compartilhar um deles neste post. Um deles, é a corrida à especialização.  A competitividade acirrada dos mercados mais “tecnopólizados” (a alguns anos eu usaria o termo industrializados, mas já foi o tempo) por mão de obra qualificada, leva as pessoas a acreditarem que o segredo do sucesso, ou a segurança do trabalho, esta em uma “especialização”. Mas isso, é o que o mercado e as grandes empresas dizem: Há vagas de sobra para mão de obra qualificada.

Mas, o que é ser mão de obra qualificada? O que torna alguem bom ou não no que ele faz, no desempenho do seu trabalho? A quantidade de conhecimento prático, ou as suas “especializações” ?

Isso, me leva ao primeiro trecho que me chamou a atenção no livro “Filosofia da Ciência” de Rubem Alves:

“O fato  de uma pessoa ser muito boa para jogar xadrez não significa que ela seja mais inteligente que os não-jogadores. Você pode ser um especialista em resolver quebra-cabeças. Isso não o torna mais capacitado na arte de pensar. Tocar piano (como tocar qualquer instrumento) é extremamente complicado. O pianista tem de dominar uma série de técnicas distintas – oitavas, sexta, terças, trinados, legados, staccatos – e coordená-las, para que a execução ocorra de forma integrada e equilibrada. Imagine um pianista que decidiu especializar-se (note bem esta palavra, um dos semideuses, mitos, ídolos da ciência!) na técnica de trinados apenas. O que vai acontecer é que ele será capaz de realizar trinados como ninguém – só que ele não será capaz de executar nenhuma música”

Esse é o primeiro aspecto fascinante do lance da criatividade:  Não somos “forty-niners” de 1849, e não estamos em uma espécie de corrida alucinada a uma região na Califórnia em busca de ouro. O questionamento que o texto de Rubem Alvez me levou é “o que nos torna bons no que fazemos” ?  Não me espanta ver que algumas profissões mais recentes, estão carregadas de “diversas visões” do conhecimento como um todo. Os profissionais “multidisciplinares”, são exatamente o contrário do pré-suposto cientistas. “Quanto maior a visão em profundidade, menos a visão em extensão”. E no fim das contas, a corrida por uma especialização pode se mostrar um frágil e perigoso terreno a se trilhar.

O maior problema que vejo nisso tudo, é a falta de visão e de criatividade que estamos nos limitando. Pensamos ainda em outras soluções, em outras “saídas” improváveis?  Ou somos treinados na especialização para fazer exatamente aquilo que alguem, há 5 ou 10 anos disse que era bom, e desde então ninguém questionou o porque de fazermos aquilo? Ou no fim das contas, somos “treinados” para saber como aplicar as “soluções” sob medida para todos os problemas da humanidade?

Mas e as coisas que aprendemos no dia-a-dia?  Possuimos também o senso comum: coisas que sabemos fazer porque fomos treinados pela vida, ou pela sociedade em que vivemos. Uma dona de casa que tem o senso comum do que ela precisa comprar em uma feira (alimentos) sabendo das suas limitações (financeiras, sociais, e até mesmo físicas – porque alguem tem que carregar tudo aquilo que for comprado) e que aprendeu com alguem (ou aprendeu por tentativa e erro), como executar essa ação. Existem aspectos que precisam ser consideradas: a escolha de alimentos aqui não é regulada apenas por fatores econômicos (o quanto ela pode adquirir), mas por fatores simbólicos, sociais e políticos. “Oferecer feijoada para uma sogra que tem problemas de úlcera, é romper claramente com uma politica de coexistência pacifica” (ALVES,  Filosofia da Ciência, pg 13).

A dona de casa não fez uma especialização em “compra de feira” para saber com executar sua tarefa com maestria. “É comportamento ingênuo, puro e simplista, pouco inteligente?
De forma alguma, pois sem o saber, ela se comporta como o pianista, em oposição ao especialista em trinados.

É provável que uma mulher formada em dietética, e em decorrência da sua (de)formação, em breve se veja diante de problema na sua casa em virtude de sua ignorância do carácter simbólico e politico da comida. Especialista em trinados “

“Mas aqui está uma lição fundamental: ser bom ou não em ciência, como ser bom ou não em senso comum, não é saber soluções e resposstas já dadas. Essas podem ser muito bem encontradas em livros e receituários. Ser bom em ciência e no senso comum é ser capaz de inventar soluções.

Então, onde está a criatividade? A criatividade, está na habilidade que desenvolvemos de criar soluções, e questionar as respostas prontas. E isso, pode não ter nenhuma relação com uma especialização.  Sempre vou me lembrar de um vídeo de um documentário que a BBC de Londres fez uma vez, sobre uma agência de soluções. O desafio era criar um carrinho de compras moderno, e que fosse “inovador”, e tudo isso deveria ser criado em uma semana. O que mais me chamou a atenção, foi a composição do time. Claro, pessoas especialistas em determinados assuntos relacionados a mecânica e a construção de “coisas” estavam ali, mas o que faria uma “bióloga e uma antropologa” nesse meio? Tudo !!!! Essa é a resposta: O carrinho, antes de ser um invento tecnológico, é feito pra humanos utilizarem, e biologia e antropologia, tem tudo a ver com humanos.

Pensar diferente, creio eu em minha pequenez, ser fundamental par que uma especialização valha a pena.

E para encerrar esse post:

“Pessoas que sabem as soluções já dadas são mendingos permanentes. Já as que aprendem a inventar soluções novas, abrem portas fechadas e descobrem novas trilhas. A questão não é saber uma solução já dada, mas ser capaz de aprender maneiras novas de sobreviver”.

Referencia bibliografica:

Rubem Alves, Filosofia da ciencia, 2002 – Editora Loyola
Régis de Moraes, Filosofia da Ciência e Tecnologia – 1997 – Editora Papirus

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